Entrevista com Valentino Rossi: “corro por paixão


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Rossi voltou à Yamaha após dois anos de inferno. Uma aventura que levou alguns a duvidar daquele que muito consideram o melhor de todos os tempos. Os que dizem que, aos 34 anos, está pronto para se retirar, incapaz de seguir o ritmo dos mais jovens que ele: Lorenzo, Pedrosa e Márquez. Pelo meio do percurso na Ducati perdeu um amigo, Marco Simoncelli, numa queda em que também esteve envolvido.
Mas nada disto fez com que Rossi perdesse o seu amor pela vida e pelas corridas. O piloto, após 20 anos na crista da onda, mudou; mas o ser humano, em muitos aspetos, continua a ser aquele rapaz de 16 anos que em 1996 conquistou o mundo com a sua desenvoltura. Quase a meio dos trinta, está velho e mais sábio, mas a sua vontade de se divertir não diminuiu minimamente.

“Para mim o segredo é a paixão que me faz correr. Sempre foi assim toda a minha vida. Após 18 anos a paixão continua intacta, e isto é a chave de tudo. Alguns pilotos correm porque têm um dom, e graças a eles querem ficar ricos. No meu caso a competição é paixão. Isto é importante se quiseres ter uma carreira desportiva longa. Continua a sonhar com as corridas e com uma grande motivação. Depois de todos os títulos e vitórias, ainda tenho sede de corridas”.

A idade

Max Biaggi e Carlos Checa foram Campeões do Mundo de SBK com 40 anos. Loris Capirossi deixou o MotoGP há pouco tempo, e Colin Edwards, com 39 anos, não dá sinais de querer retirar-se. Podemos ver Rossi em pista daqui a seis ou sete anos?
“Espero que sim. Acho que se pode competir até aos 38 ou 40 anos. Assim, ainda me restam algumas temporadas. Não é verdade que com a idade percas a agressividade ou que não sejas capaz de ir ao limite porque ficas com medo. O que é verdade é que, nos momentos mais perigosos, tentas arriscar menos. Não creio que tenha perdido nada da minha agressividade. Utilizas mais a cabeça, pensas mais, tens outras cartas para jogar. A experiência leva-nos a encarar as coisas com mais tranquilidade e aceitar melhor a pressão.”

O futuro

Valentino ainda não planeou o que vai fazer quando deixar a competição, mas uma vez que pendure o capacete tem claro que deseja fundar uma família. “Quero ser pai, mas à parte disso não tenho a certeza” O seu amigo e ajudante Uccio Salucci acaba de estrear-se na paternidade, e Rossi também parece mais perto das noites em branco e trocas de fraldas. “Estou muito contente que o Uccio tenha sido pai, é o meu “piloto de testes” nesta área. Estou a tentar compreender tudo o que isto significa, mas não tenho pressa. Ainda não estou preparado. Enquanto correr em MotoGP posso esperar e, além do mais, estamos a trabalhar na minha empresa, VR46, para o futuro. Não sei se alguma vez farei o papel de diretor de equipa, pois não sei se me compensaria viajar pelo Mundo e depois não poder subir para a moto”. Uma das novas contratações para a sua empresa de merchandising é Cal Crutchlow. “Gosto muito de Cal, é um dos melhores pilotos de MotoGP e é muito divertido. É diferente, está sempre de bom humor, e estou muito contente por poder trabalhar com ele”.

Casey Stoner

E o que pensa Rossi de Casey Stoner. Um piloto que, apenas com 27 anos, se retirou e não perdeu a oportunidade para falar mal do campeonato. O italiano entende perfeitamente que Casey tenha querido retirar-se, e desfrutar da sua vida na Austrália, para além de “matar o vício” com as corridas dos V8 Supercars. O que Valentino não entende é porque é que ele mordeu a mão que lhe deu de comer: “Creio que todos temos de tomar as nossas próprias decisões. Se Casey está cansado de dar voltas pelo Mundo e quer estar com a sua família, ninguém pode discordar. O que não gostei foi do que ele disse acerca do ambiente em MotoGP, pois acho que nós temos de ser um exemplo para os pilotos mais jovens que aqui chegam. Tão pouco julgo que essas declarações sejam positivas para os aficionados que seguem este desporto”.

Vida privada

Valentino Rossi sempre foi um embaixador modelo do MotoGP, desde que chegou à classe rainha em 2000. Pese embora o fiasco da Ducati, continua a ser, largamente, o favorito dos aficionados. As suas habilidades não se limitam à pista, e um dos seus grandes sucessos tem sido manter a sua vida pessoal muito privada. O que não é fácil, tendo em conta que hoje em dia, com um smartphone, qualquer um pode aceder ao Facebook e ao Twitter.
“Sempre dividi de forma clara as minhas duas vidas. Numa sou o Valentino Rossi, o piloto, com determinadas regras. Sim, nesta existe pressão, mas também tenho bons momentos. A outra é a minha vida em Tavullia, onde estou em minha casa com a minha família, a minha namorada e os meus amigos. Construí um pequeno mundo onde posso ter a minha vida privada. Sei que em Roma ou em Milão iria ser perseguido pelas pessoas e pelos fotógrafos, mas na minha vila posso fazer uma vida normal. Pouca gente vem a minha casa por um autógrafo ou uma foto. Lá a vida é tranquila”.

Os fãs e os amigos

Rossi continua a ser uma das grandes estrelas do desporto em Itália, e o fiasco com a Ducati não beliscou a sua popularidade. “Houve anos em não podia sair à rua sem ser perseguido por uma legião de fãs. A adoração continua, mas de forma algo mais tranquila. “É diferente, mas não mudou assim tanto. Já tenho 34 anos, as pessoas estão acostumadas a ver-me, e há um outro tipo de respeito. Quando me veem é como se vissem um velho amigo. Quando era mais jovem era sempre notícia”.
Valentino tem toda a espécie de seguidores, entre eles Brad Pitt e Daniel Day-Lewis. Pitt chegou a dizer que gostaria de ser Rossi, e que vê-lo pilotar era como ler um poema. O italiano, pelo contrário, nunca se quis aproximar do glamour de Hollywood. “Quando ouves dizer que o Brad Pitt queria ser como tu, é claro que ficas orgulhoso. Eu divirto-me muito com os meus amigos, tenho amigos famosos, cantores e atores, mas a relação é diferente se a compararmos com a que tenho com os meus amigos de infância, os que cresceram comigo. Com eles a relação é muito normal, sou simplesmente mais um”.

Os rivais

Mas a companhia em que Rossi mais pensa este ano é composta por três espanhóis: Jorge Lorenzo, Dani Pedrosa a Marc Márquez. Se os vencer, terá conseguido a sua grande ambição, que é chegar ao seu décimo título, depois de ter triunfado pela última vez em 2009 com a Yamaha YZR-M1.
“O maior objetivo é tentar ganhar outra vez o Mundial, mas primeiro tenho de manter-me no topo, estar no pódio e, sobretudo, voltar a ganhar uma corrida. Depois de dois anos complicados, na minha idade não é fácil, já não ganho desde 2010. Assim, o objetivo principal este ano é voltar a ganhar uma corrida”.
Rossi chegou a duvidar se ainda tinha o que era preciso para lutar pela vitória, uma vez que tinha conseguido novamente material de primeira linha. “A dúvida surge porque os outros pilotos estão a crescer, a geração seguinte é mais forte e mais rápida. É como quando tens de trocar o teu computador ou telemóvel por um mais moderno. É certo que vai ser diferente, porque o nosso desporto mudou muito. Quando comecei os pilotos eram atletas e levavam as coisas a sério, mas havia mais liberdade. Agora, a vida dos pilotos de MotoGP é diferente. Há que cuidar da dieta, ir cedo para a cama e nada de álcool, por isso vou ter de mudar algumas coisas”, diz com um sorriso.

Sobre a Ducati

É impossível estar com Valentino Rossi e não lhe fazer perguntas sobre o fiasco na Ducati. Três pódios em 35 corridas com a Desmosedici afetaram-lhe a moral, pois provou o sabor do fracasso. E porque é que fracassou de forma tão estrondosa? Numa resposta de brutal honestidade, disse: “foi uma grande desilusão. Não me arrependo, porque tentar fazê-lo foi uma boa escolha. Mas após seis ou sete meses dei-me conta de que seria impossível, ou, no mínimo, muito difícil. Em muitos aspetos a Ducati é completamente diferente da Yamaha. A forma como trabalham, como pensam. Julgo que a maior diferença é a humildade dos japoneses. Quando falas com a Yamaha ou com a Honda, especialmente na Yamaha, e dizes que está algo mal na moto, isto não é negativo para os engenheiros japoneses. É positivo, porque entendem que assim melhora-se a moto. Às vezes na Ducati as coisas não eram assim. Quando dizias que havia um problema, em primeiro lugar as pessoas na Ducati não confiam em ti a 100%, e em segundo lugar ficavam chateados porque lhes dizias que a moto tinha um problema”.

O regresso à Yamaha permitiu a Rossi acabar com o pesadelo da Ducati, mas o que teria sucedido se não tivesse oportunidade de voltar a pilotar a M1? Ter-se-ia retirado? “Tinha decidido retirar-me”, confessa. “Ou pelo menos teria decidido ir para o Mundial de SBK, mas o certo é que, para mim, aquilo tinha acabado”. E aqui entramos num denate que dividiu os adeptos pelo Mundo fora. Porque é que Stoner ganhou com a Ducati e Rossi nem sem aproximou da vitória? Valentino não tem uma teoria clara, nem sequer compreende porque é que Stoner foi o único piloto capaz de domar a Ducati. Sem dúvida, um dos grandes mistérios do motociclismo.

“Toda a gente esperava que eu fosse meio segundo mais rápido que os demais pilotos, mas isto foi antes de terem chegado Stoner, Pedrosa e Lorenzo. Stoner era capaz de tirar partido da Ducati. Foi o único, porque os restantes, ou se retiraram ou foram para o Mundial de SBK. Não entendo porque é que Stoner foi capaz de fazer a diferença com a Ducati quando eu estava na Yamaha. Casey era capaz de pilotar uma moto que é muito difícil de levar ao limite. Em 2007 ganhou um título com a Bridgestone, quando eu e Pedrosa estávamos com a Michelin, e a diferença era muito grande. A Ducati era difícil de pilotar, mas nas retas era muito rápida. Depois de 2007 não ganhou outro campeonato com a Ducati, mas foi capaz de ganhar mais alguns Grandes Prémios, não entendo como. Se a chegada da Audi faz supor que algo vai mudar na Ducati, então serão competitivos, mas se nada mudar nunca o conseguirão”.

Simoncelli

Após o acidente de Marco Simoncelli, em Sepang 2011, Valentino nunca pensou em retirar-se, pese embora ter perdido um amigo chegado. Para cúmulo, Rossi viu-se envolvido no acidente que custou a vida ao seu querido “Sic”, um jovem que parecia destinado a suceder a Rossi no coração dos fãs, quando o piloto de Tavullia resolvesse pendurar o fato.
“Nunca pensei em retirar-me. A tragédia de Marco foi dura, mas não afetou a minha vida normal. Perdi um bom amigo, com quem passava muito tempo. Para mais, eu e o Colin Edwards vimo-nos envolvidos no acidente, mas repito que nunca pensei em abandonar. A vida é assim. Todos os pilotos agora têm um pouco mais de medo. Uma coisa é saber que pode suceder, e outra é quando sucede, e para mais aconteceu ao Marco, um dos meus melhores amigos. Todos sabemos que este é um desporto perigoso”

Fonte: Motociclismo

Entrevista realizada por Matt Birt / Motorcycle News

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